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Gorongosa

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Passados apenas 36 dias, 260 famílias de 5 comunidades do distrito da Gorongosa já debatem com os APEs em formação, a importância de observar os cuidados básicos de saúde nas suas povoações.

 

Teve início a 9 de Abril corrente a segunda fase de estágio modular dos APEs em formação na Gorongosa e já foi possível contactar 260 casas pertencentes a igual número de famílias num debate orientado para melhorar o nível de aderência aos cuidados básicos de saúde familiar dentro das comunidades da zona tampão (ZT) do Parque Nacional da Gorongosa (PNG).

 

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Um grupo de APEs a chegar numa casa na comunidade de Nhanguo

 

Nesta missão de salvar vidas humanas através da observação de cuidados de saúde ambiental das pessoas que vivem nos arredores do PNG constam como temas principais de sensibilização a observância constante da higiene individual, familiar e do saneamento do meio, os passos que as mães grávidas devem seguir a partir da consulta pré-natal até ao pós-parto, as vantagens do parto hospitalar, a importância da prevenção de transmissão vertical de HIV/SIDA, o planeamento familiar, o aleitamento materno exclusivo assim como as doenças mais frequentes incluindo infecções transmitidas sexualmente (ITS). Também o controlo das fichas de vacinação e peso dos bebés, os cuidados na alimentação das crianças, a forma de preparar e dar as papinhas aos bebés depois dos primeiros seis meses de vida e a variedade dos alimentos na família entre outros assuntos pertinentes foram abordados pelos APEs.

 

Com muitos dos entrevistados pelo Departamento de Comunicação do PNG podemos confimar com tristeza que muitas famílias não possuem latrinas, aterros sanitários e copas domiciliárias, lacunas que constituem problemas sérios de saúde assim como o não tratamento de água, a qual muitas vezes é adquirida em riachos, poços, nascentes e charcos o que constitui um grande atentado à saúde familiar.

 

Segundo Carlos Félix Melo, APE de Murombodzi, "o estágio decorre normalmente. Eu esperava ver, na prática, o que vinha estudando na sala de aulas. Depois de entrar na comunidade, vi no concreto. Vi problemas de saúde como, por exemplo, muitas crianças menores de cinco anos que sofrem muito de diarreias, malária e desnutrição. Mas com os conhecimentos que eu aprendi, consegui sensibilizar as famílias. Outros aspectos que encontrei é que muitas famílias não possuem latrinas. Não têm copas para pôr pratos antes e depois de lavados. Aterros sanitários também faltam em muitas casas que já visitei até hoje. Como desafios, encontrei casas em que os donos diziam que nos seus quintais não se admite abrir latrinas porque o falecido chefe daquela área, Mucodza, proibiu abertura de qualquer cova naqueles espaços antes da sua morte. Quanto às mães, vi que algumas, depois das suas crianças completarem nove meses, abandonam o controlo do crescimento, isto é, deixam de levar as suas crianças ao controlo do peso."

 

Para Celina Augusto Isaias, APE de Chitunga, "nas comunidades onde já andei até hoje encontrei muitas mães que não cumprem com os calendários de vacinação das crianças. Por exemplo, na comunidade de Tsiquir, encontrei uma senhora que me disse que não tem dinheiro para poder ir ao hospital sempre que necessário pois não tem ninguém que lhe possa dar tal dinheiro. Por outro lado, eu não esperava encontrar tantas diferenças em termos de limpeza dos quintais. Alguns quintais estavam limpos. Mas muitos não. E vi muitas crianças menores mal nutridas e anémicas. Tive de sensibilizar as mães para levarem aquelas crianças para a unidade sanitária mais próxima a fim de serem tratadas. No entanto, o estágio para mim foi muito bom. Gostei. Aprendi muito com esse contacto directo com famílias."

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Celina Augusto Isaías a receber, de uma mãe, uma ficha de uma das crianças em Mucodza para o controle da vacinação e peso

 

Segundo a enfermeira chefe de saúde materno–infantil da Gorongosa, Lily Santos, "os debates que os APEs fazem em família dependem muito do contexto... cada APE é responsável por conduzir o debate de saúde em cada casa visitada, orientando-se pelo contexto concreto que encontra naquela família ao chegar. Se o APE chega numa casa e logo é atendido por uma senhora em gestação, o assunto central andará em torno dos cuidados pré-natais, a necessidade de observância do calendário da gravidez, a importância e vantagens do parto hospitalar comparativamente ao parto em casa, que é secundarizado pelo formador."

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Higiene: ao fundo um cão a comer sobras numa panela e o outro à espera da sua vez para também comer na mesma panela, que depois será usada para confeccionar alimentos para humanos!

 

"A seguir" continuou Lily Santos, "é que o APE poderá lançar um rápido olhar para outros aspectos pertinentes como a importância do planeamento familiar, o saneamento do quintal, se existem outras crianças, se estas têm fichas e se a mãe cumpre com o calendário de vacinação e peso das crianças."

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Poligamia: três esposas de um único marido, todas com bebés a que faltam algumas vacinas e mais peso; para além dos bebés, cada uma tem tantas outras crianças

 

"Se a criança mais nova tem ou não idade de iniciar a comer as papinhas, se a casa tem latrina, casa de banho, copa para pratos e por ai em diante. Os APEs não falam à toa ao chegar em cada casa." Frisou Lily Santos.

 

Para o director deste curso dos APEs, Salvador Francisco Jemusse, "o estágio deste segundo módulo está a decorrer dentro das expectativas. Mais de 260 famílias já foram contactadas directamente pelos formandos e os resultados são muito encorajadores. Os APEs assimilaram como era de esperar os conteúdos e estão a conduzir os debates de forma profissional, concentrando-se nos aspectos mais urgentes que cada família tem para levar uma saúde familiar e ambiental condigna."

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Regras locais: antes de dividirem-se e entrarem em contacto com as famílias, os APEs seguem as normas locais apresentando-se ao chefe da povoação local

 

"Apesar de cada dia termos uma sessão final de aperfeiçoamento," continuou o director do curso "no final do trabalho, 6a feira, 13 de Abril de 2012, teremos uma sessão mais alargada que analisará desde 2a feira, os passos que fomos dando até 6a feira. Depois, os APEs terão ainda uma avaliação final do módulo 2A. Depois é que seguem para o módulo 2B."

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Avaliação final: na tarde do último dia, depois do contacto casa a casa, os APEs fazem uma avaliação individual do seu trabalho comunitário no centro Azemo, Vila da Gorongosa

 

Segundo o coordenador do curso, Sérgio Ernesto Correia, "os planos estão a ser cumpridos desde dentro da sala de aula assim como fora. Cada módulo contempla um estágio. Por isso temos os formandos em APEs a contactar com as pessoas das comunidades desde 9 de Abril de 2012. Este é um trabalho planificado. Vai terminar no dia 13 de Abril e com uma avaliação. Estamos dentro das normas e regulamentos. Por exemplo, antes de iniciarmos com as saídas, obtivemos permissão da equipa de supervisão e dos serviços distritais de saúde. Todos os técnicos envolvidos estão devidamente autorizados. E a gestora do curso, Corina Clemente, também está bem abalizada em termos de gestão e disponível sempre que necessário. Por isso é que alunos têm assistência alimentar e alojamento condignos."

 

Questionado sobre o contacto casa a casa, Sérgio Ernesto Correia afirmou "Ora, desde o dia que iniciámos com as sensibilizações casa a casa, temos vindo a constatar muitas irregularidades nas famílias. Não são todas as casas que cumprem com os calendários de vacinação ou peso das crianças. Isso nos choca, mas não demonstramos o nosso estado de espírito. Pelo contrário, onde notamos tal irregularidade, aconselhámos a família ir de seguida ao controlo da saúde das mães e/ou crianças. Mostrámos que é muito importante que as crianças sejam vacinadas contra doenças, recebam vitaminas e regularmente as mães as levem ao peso para verificação se estão a crescer bem ou não."

 

"Por outro lado," Sérgio continuou "deparámos com muitos casos de má nutrição, sobretudo em crianças. Nesses casos, explicámos o que a família deve fazer para as crianças recuperarem a saúde e as de desnutrição grave referimos a unidade sanitária. Também notámos com desgostos que alguns pais não se preocupam muito com o controlo da saúde das crianças. Deixam tudo ao cuidado das esposas e às vezes estas têm tantos outros afazeres. Vezes há em que uma criança come uma vez apenas por dia, junto aos adultos e no mesmo prato como o hábito local manda. Depois a criança não come mais nada até a hora da próxima refeição. Mostrámos que esta atitude diante de criança é errada e as faz mal nutridas. Por outro lado está a variedade do que se come. Explicámos que é preciso variar os alimentos pois existe tanta batata doce, reno e muita criação de animais domésticos, mas a maneira de preparar desses produtos locais é deficiente, muitas vezes por falta de conhecimentos."

 

Concluíndo, o coordenador assegurou-nos que "os cursistas estão a desempenhar bem o seu papel, apesar de existir um e outro com mais necessidade de desenvolver mais competências de leitura, escrita e comunicação. Mas como foram escolhidos pelas próprias comunidades através do voto de confiança, nós os formadores é que muitas das vezes nos desdobramos para fazer entender a todos o que os módulos dizem. O trabalho decorre sem muitos sobressaltos, apesar de na 5ª feira, 12 de Abril, a chuva ter tentando impedir o programa, superámos as expectativas."

 

De salientar que já no primeiro estágio do Primeiro Módulo havido em meados de Março e que durou dois dias, os APEs da Gorongosa conseguiram contactar com um número total de 144 famílias em Nhambondo e Tsuassicana, unidade A, e na unidade D do bairro Matucudur respectivamente. Com o segundo estágio os APEs totalizam um número de 404 famílias já sensibilizadas em apenas um mês.

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       Todos os 24 APEs no centro Azemo, no fim de mais um dia de estágio comunitário

 

O PNG agradece o apoio de parceiros importantes na implementação do programa dos APEs em Gorongosa, dentro deles estão USAID, Mt. Sinai Global Health Center e Bristol Myers Squibb Secure the Future Foundation.

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