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Gorongosa

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Gorongosa: Santuário Bravio (1964)

Parque Nacional da Gorongosa 21 Jan 12

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Deliciem-se com esta fantástica descrição feita por José Maria d'Eça de Queiroz (neto do famoso escritor Português Eça de Queiroz) sobre a sua viagem à Gorongosa, em 1964.

 

"Numa tarde amena de céu limpo de Maio, a minha mulher e eu embarcámos numa viagem que foi, sem qualquer margem de dúvidas, a mais maravilhosa que algum de nós fez. …

... depois de permanecermos três dias na Beira, partimos para o Parque Nacional da Gorongosa. Logo no início da nossa expedição, entre o rio Pungue e o Acampamento do Chitengo, tivemos a sorte de experimentar a nossa primeira emoção: uma manada de elefantes barrou o caminho. Ali, a uma distância de cerca de cinquenta metros, os possantes animais atravessavam lentamente a estrada, na direcção do rio, pela frescura do entardecer. Pouco depois, com os últimos raios de luz do dia, chegámos ao Acampamento do Chitengo.

 

Saímos do campo cedo na manhã seguinte, ainda de noite. Mas pouco tempo depois testemunhámos o mais resplandecente e glorioso espectáculo que a Natureza nos pode proporcionar: a incomparável irrupção de vida e de luz quando o sol penetra pela neblina no coração da estepe. Primeiro e durante algum tempo a grande pradaria, ainda coberta pela sombra e pelo verde da humidade, espraiava-se até às lagoas longínquas, orlada por garças-reais brancas, que delimitavam o horizonte. Para qualquer lado que olhássemos, vida -- a maravilhosa vida livre selvagem -- descansava delicadamente na erva macia onde as gotas de orvalho pareciam ter cristalizado.

 

Por todo o lado grandes manadas pastavam pacificamente: dúzias de zebras, centenas de búfalos, milhares de gnus, todos se estendendo até perder de vista. Muito perto de nós, dominados pela curiosidade, um grupo de pivas observava-nos de forma inquiridora, com o olhar líquido e lânguido dos antílopes. Um par de zebras bebia de um ribeiro profundo, com as suas vistosas riscas reflectidas na água ligeiramente agitada. Impalas com graciosos chifres em forma de lira, levantaram as acetinadas orelhas aguçadas à nossa aproximação, antes de debruçarem novamente sobre o pasto.

 

E enquanto uma teia de luz rósea irradiava das árvores distantes, dispersando-se sobre o verde suave do pasto dos elefantes, o nosso coração enchia-se da paz infinita daquele mundo inocente e silencioso. Tudo ali se movia lentamente, tudo deslizava sobre o terreno coberto de orvalho como um fluido pálido sobre veludo sobrenatural. Reinava uma harmonia sem igual, uma harmonia de sombras delicadas, uma harmonia de reflexos irreais, uma harmonia de corpos limpos e almas puras. E então subitamente o sol, o forte sol africano inundou a pradaria sem limites, inundou a longa lagoa, inundou a densa savana.

A Gorongosa é como o mar: sempre igual e sempre diferente. Existem centenas de mares no mar; na Gorongosa a estepe tem uma centena de estepes e a savana uma centena de savanas.

 

Mas as necessidades brutais da vida quebraram este encantamento. Algumas horas mais tarde, com o calor matinal das onze da manhã já a dardejar pela savana, conhecemos um grupo de dez leões esfomeados. Sentados perto de duas palmeiras marcando a fronteira entre a floreste e a estepe, os felinos assemelhavam-se a estátuas sagradas tiradas de um álbum dos templos da antiguidade: imóveis como pedra pintada, a vida só se vislumbrava neles através do brilho nos grandes olhos amarelos - olhos que revelavam uma determinação impiedosa e inflexível. Seguimos a direcção daqueles magnéticos olhos ovalados cor de mel. Dirigimos rapidamente a atenção para o local observado pelos esfomeados leões.

 

Eram abutres: a aguardar pelos restos de uma zebra que outro grande leão velho devorava. O odor forte de sangue fresco e entranhas quentes subiu pelo ar imóvel. Os dez leões esfomeados aproximaram-se sem pressa, os músculos sobressaindo da pele elástica. Um dos animais avançou, para puxar ostensivamente uma das extremidades dos restos da zebra. Tomado pela fúria, o velho leão abandonou momentaneamente a carcaça e investiu iradamente para castigar o transgressor. E foi o suficiente, os outros felinos que observavam a cena lançaram-se sobre os despojos com uma incrível confusão de rugidos e resfolegar de patas.

 

Os dias soçobraram. Onde estamos nós? Temos a sensação de ter feito uma longa viagem pelo tempo. Milénios de milénios esboroam-se perante os nossos olhos incrédulos. Uma força prodigiosa atrai-nos ao passado, precipita-nos sobre uma das grandes Manhãs do mundo. À nossa volta estende-se um paraíso que ainda não conheceu a tragédia do pecado original. O mistério da inocência funde-se com as mesmas leis cruéis que regem a luta pela existência. Eis a Grande Natureza vivendo a Sua vida."

 

Extracto de:

EÇA DE QUEIROZ. (José Maria d') SANTUÁRIO BRAVIO. WILD SANCTUARY. Os animais surpreendentes da Gorongosa e safaris em Moçambique. 270 fotografias. Edição do autor. [Empresa Industrial Gráfica do Porto. Litografia Pátria, Porto. Neogravura, Lda. Lisboa. Empresa Nacional de Publicidade]. Lisboa. 1964. De 30x23 cm. Com 351 pags. Obra bilingue português e inglês.

 

Para ver as fantásticas fotos desta viagem clicar AQUI ou na imagem acima.

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