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Gorongosa

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O Renascer do Parque Nacional da Gorongosa

Parque Nacional da Gorongosa 15 Out 10

Este é o segundo de uma série de textos publicados no "The Huffington Post" pelo biólogo Rob Pringle (Universidade de Harvard) sobre o Parque Nacional da Gorongosa e relacionados com o Projecto de Restauração da Gorongosa.

 

O primeiro artigo foi publicado neste blog com o título "Onde o Vale do Rift Acaba" com a data de 15 de Agosto

  
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Ha cinquenta anos atrás, nascia o primeiro parque nacional de Moçambique. Ao tomar tal decisão, o governo colonial Português juntou- se a uma iniciativa global que no Séc. XX tentou assegurar que algumas paisagens naturais assim permanecessem. Durante alguns anos o Parque Nacional da Gorongosa foi um autêntico local de culto para os amantes de safaris.

 

É um lugar espantoso, e os filmes Super 8 dos turistas de então (muito apropriadamente silenciosos) dão-nos uma ideia de como ele era naquela época. Manadas de búfalos e de bois-cavalos a serem rondadas por leões cautelosos ao longo de uma planície aluvial circundada por palmeiras e acácias amarelas. Pessoas a almoçar no restaurante do Parque antes de tomarem os seus lugares em carrinhas VolksWagen. Ao mesmo tempo que o Parque Nacional da Gorongosa se tornava conhecido um pouco por todo o mundo, os restos do imperialismo Europeu em África começavam a desaparecer.

 

Foram necessários cerca de 11 anos de guerra de guerrilha para que tal acontecesse em Moçambique. Depois disso, em vez da paz, veio uma terrível guerra civil, que "comeu viva" a nova república. Os turistas tinham deixado de visitar a Gorongosa muito antes da guerra civil ter acabado em 1992, e os primeiros a entrar no que restava dos portões de entrada não era turistas mas sim caçadores que rapidamente "despacharam" o pouco que tinha sobrevivido da fauna bravia.

 

Podemos assinalar 1994 como o ano da morte do Parque Nacional da Gorongosa. Em 1960, um bebé que nascesse em Moçambique, medianamente poderia esperar viver cerca de 35 anos. Por coincidência, e devido a um conjunto de factores demasiado complexos para abordar neste momento, o Parque Nacional da Gorongosa quese que atingiu esta idade.

 

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Nos Estados Unidos, temos a tendência para olhar para os nossos parques nacionais como entidades estáticas. Muitos de nós sabem que não é realmente assim -- os ecossistemas são dinâmicos, e os limites dos parques nacionais e as prioridades de gestão alteram-se à medida que o tempo passa. Mas a ideia de parques nacionais enquanto natureza primordial e virgem é muito atraente, e permanece como um dos mitos nacionais mais populares que herdámos e a que nos aferramos, embora em contraste com a realidade que nos rodeia, simplesmente porque nos diverte fingir que somos o primeiro ser humano que está a ver um determinado lugar. É por isso que guardamos o nosso lixo num recipiente adequado e tentamos "Não deixar marcas da nossa presença."

 

A minha irmã uma vez passou um verão a trabalhar como uma "Junior Ranger" em Denali, onde uma grande parte do seu trabalho era de andar de acampamento em acampamento e retirar as pedras das fogueiras ilegais de maneira a que ninguém pudesse aperceber-se de que alguém tinha feito uma fogueira. É no entanto de salientar que o modelo do que deveria ser um parque nacional mudou muito desde que o Congresso oficializou Yellowstone em 1872. Mesmo nos próprios EUA, os objectivos têm flutuado: primeiro matámos todos os lobos, depois mudámos de ideias e voltámos a introduzi-los. Mas exportar o modelo americano para outros países implica todo um novo nível de complexidade.

 

Por exemplo, antes de termos os parque nacionais na América tal como os conhecemos hoje, grande parte da população nativa Americana foi obliterada. Hoje em dia, o genocídio já não é politicamente correcto; nem sequer era considerado politicamente correcto, na maior parte dos casos, na África colonial, onde a fasquia humanitária tinha sido colocada muito em baixo.

 

 

Em resumo, a evolução dos nossos padrões sobre como devemos ou não tratar os outros seres humanos bem como das nossas crenças sobre o que é a natureza e como conservá-la, e a nossa confrontação com certas realidades biofísicas, geopolíticas, e socio-económicas forçaram-nos a redefinir continuamente a ideia de parque nacionais.

 

Então o que deverá ser um parque nacional ? Se perguntarmos a a dez pessoas provavelmente obteremos dez respostas diferentes. Mas muitas pessoas provavelmente concordarão que a finalidade dos parques nacionais é a de assegurar a existência continuada de paisagens naturais, locais de importância cultural, cenários de grande beleza, e biodiversidade (um conceito recente mas poderoso); que nos deverão proporcionar oportunidades de lazer, educação e contemplação; e que no caso de os criarmos (ou de os tornarmos maiores), não deveremos prejudicar ninguém em demasia nesse processo -- os parques nacionais deverão contribuir para o desenvolvimento económico e melhorar o bem- estar humano em vez de exacerbar a pobreza. Sobre como é que tudo isto será possível, as opiniões divergem.

 

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É neste contexto global que o Parque Nacional da Gorongosa está a renascer. E este é o contexto local: Moçambique é um dos países mais pobres do mundo, senão o mais pobre. A população -- especialmente a população rural -- está exausta e assustada de morte. Estão profundamente traumatizados pelo que viram durante a guerra civil, pelo que lhes fizeram e pelo que eles fizeram aos outros. Em média, uma pessoa vive com o equivalente a $0.38 US por dia, e um em cada quatro bebés morre antes de atingir os cinco anos de idade. Ao ecossistema da Gorongosa, tendo sido um dos maiores campos de batalha, faltam populações funcionais de virtualmente quase todos os grandes herbívoros -- os animais que podem manter o capim rasteiro e evitar que as queimadas se descontrolem.

 

Pessoas desalojadas pelos rebeldes, pelo governo, ou por ambos, refugiaram-se nas encostas anteriormente reconhecidas como sagradas da serra vizinha ao parque, onde as suas práticas de cultivo da terra ameaçam a qualidade da água dos rios que fluem encosta abaixo e a própria existência da planície aluvial do Vale do Rift que serve de base a todo o ecossistema. O Governo de Moçambique, correctamente reconhecendo Gorongosa como um recurso de grande potencial, quer fazer o parque reviver, enquanto em simultâneo procura cuidar das necessidades do seu povo sofredor. Como é que isto se pode conseguir ?

 

Muita gente e muitos factores têm contribuído para o renascer do Parque Nacional da Gorongosa, mas um catalizador crucial tem sido uma invulgar associação entre o governo de Moçambique e um filantropo Americano que dá pelo nome de Greg Carr. Carr visitou pela primeira a Gorongosa em 2004, e em 2007, a sua fundação formalizou um acordo de 20 anos com o governo para co-gerir o parque; de forma explícita, nas 122 páginas do acordo, constam compromissos quer para a restauração ecológica, quer para um desenvolvimento económico sustentável. A Fundação Carr suporta a grande parte das necessidades financeiras do projecto, e em troca o governo cede-lhe muitas das responsabilidades da gestão do quotidiano e do planeamento a longo prazo.

 

O objectivo final, sem dúvida, é que o parque possa pagar o preço da sua própria existência, o que significa não só cobrir os custos operacionais, mas também os custos de oportunidade. O parque necessita de criar empregos e instigar os turistas a gastar o dinheiro necessário para que as pessoas circunvizinhas vivam melhor que se usassem estas terras para ganharem a sua vida por outros meios.

 

 

Por outras palavras, Gorongosa está a tentar atingir aquilo que um ecologista designou por "Conservação Fase II ". A Fase I é a da velha escola: desenhar linhas num mapa, expulsar pessoas, postos de controlo armados, e prender os furtivos e os invasores. Quando os furtivos voltarem, prendê-los de novo. Isto é uma guerra de atrito que a área de conservação vai inevitavelmente perder. A Fase II é o esforço para incluir a área de conservação na sociedade, de tal forma que o seu direito à existência deixe de ser questionado. Paga-se a si própria quer de forma literal, através da geração de coisas como água não poluída e receitas turísticas, quer de forma figurativa, tornando-se num membro desejado pela sociedade, através de uma manada de gado, uma clínica de saúde ou uma universidade.

 

E antes que a Gorongosa possa fazer isso de forma plena, precisa de se tornar de novo num ecossistema funcional. Esta é a tarefa para as zebras, elefantes e hipopótamos. Eles são os cortadores da relva, os arrancadores de ervas daninhas e os espalhadores de extrume. Eles são os bombeiros. Eles são prodigiosos produtores de excrementos os quais permitem que os nutrientes fluam e que fertilizem as plantas. Talvez ainda o mais importante de tudo, eles são o espectáculo, em virtude da sua vulnerabilidade. Porque nós os humanos os expulsámos de tantos lugares onde eles existiam, agora estamos dispostos a pagar grandes quantidades de dinheiro para nos sentarmos em carros e observar enquanto produzem excrementos. (Nós os humanos estamos dispostos a pagar um monte de dinheiro por um monte de coisas, desde que elas sejam suficientemente raras.)

 

Os profissionais dedicados da Gorongosa estão a fazer a sua parte. Conjuntamente com alguns parceiros das esferas públicas e privadas, eles estão a trazer de volta e inteiro o "Humpty Dumpty". O resultado final vai ser diferente do que era antes -- é um dado assumido. Mas isso está perfeitamente correcto. A Gorongosa não precisa de ser um museu de cera, uma réplica do que era em 1960, ou em 1860, ou 16.000 A.C.

 

Só necessita de ser algo que o mundo aprecie e queira preservar.

 

Tradução do Departamento de Comunicação do PNG - Ver artigo original aqui: www.gorongosa.net/en/news-event/121010_Rob_Pringle_Blog/the-rebirth-of-gorongosa-national-park

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