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Gorongosa

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Onde o Vale do Rift Acaba

Parque Nacional da Gorongosa 15 Ago 10

Este é o primeiro de uma série de textos publicados no "The Huffington Post" pelo biólogo Rob Pringle (Universidade de Harvard) sobre o Parque Nacional da Gorongosa e relacionados com o Projecto de Restauração da Gorongosa.

 
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Deste o seu ponto mais setentrional no Médio Oriente, o Grande Vale do Rift estende-se por cerca de 4.000 milhas para sul para terminar em Moçambique, a república em forma de "Y" situada no litoral oriental da África austral. Se tivéssemos de viajar essas 4.000 milhas, a última etapa dessa viagem seria o Lago Urema, uma depressão com pouca profundidade, repleta de crocodilos, cegonhas e, quando as águas da inundação regridem da planície aluvial durante a época seca, vastas manadas de herbívoros.

 

O Lago Urema é a peça central deste ecossistema, que desde 1960 é oficialmente conhecido como Parque Nacional da Gorongosa. A vida na Gorongosa tem os seus altos e baixos em função do Urema, o qual por sua vez é parcialmente alimentado pelas águas que escorrem da vizinha Serra da Gorongosa. Esta manhã, enquanto eu me passeava pelas suas margens, os animais faziam o seu habitual espectáculo. Pequenas aves pernaltas, altamente hiper-activas, deambulavam nas suas "andas", debicando freneticamente a lama. Um pica-peixe pairava sobre a superfície antes de encolher as suas asas e mergulhar nas águas, para depois voltar a subir e pairar de novo. Uma águia-pesqueira elevava-se a grande altura, pregando um enorme susto às aves mais pequenas que voavam a uma altitude inferior. À distância, um gato serval com malhas "à leopardo" aparecia em cena, vindo de uma sombra, enquanto um hipopótamo quase imperceptível, roncava e grunhia.

 

Mas toda esta exuberância caótica -- magnificamente bela de ver, cheirar e escutar -- parece querer fazer esquecer as cicatrizes da história, bem como as incertezas sobre o futuro do Lago Urema e do ecossistema que dele depende.

 

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Alguns países sofreram uma dose maior do deveriam de situações penosas, e Moçambique é um deles. Aparentemente, a sua história parece- se com a de muitos outros países da África subsariana: colonização e subdesenvolvimento por Europeus, uma luta violenta para alcançar a independência, e depois uma horrível guerra civil. Durante esta guerra (1977-1992), Gorongosa foi um território muito disputado. Para além de ser o coração geográfico do país, situava-se a uma distância demasiado estratégica das estradas e caminho-de-ferro que ligavam o então esperançoso Zimbabwe com o porto Moçambicano da Beira. O domínio (não seria correcto chamar-lhe 'controlo') da região da Gorongosa foi oscilando entre os rebeldes da RENAMO e as forças governamentais da FRELIMO.

 

Foi, segundo as palavras do jornalista William Finnegan, uma guerra complicada, e faltam-nos termos adequados para descrever os seus horrores. As estatísticas certamente não lhe fazem a justiça devida: um milhão de de pessoas mortas, vários milhões de desalojados, mutilados e enlutados. Este tipo de números entorpecem-nos e enganam- nos. Instintivamente comparamo-los com os números do Holocausto, do Ruanda, do Sudão, Angola, Libéria, Uganda, Congo, Serra Leoa. Mas não existe este tipo de escala de percepção relativa para o sofrimento humano.

 

Quando as pessoas sofreram de forma tão atroz, pode parecer insensibilidade, e quase grotesco, debruçarmo-nos sobre a péssima situação da fauna bravia. Mas com os animais, pelo menos, os números dão-nos uma noção mais real do que realmente aconteceu. Na Gorongosa, o que tinham sido populações de herbívoros de aproximadamente 4.000, 6.000 e 13.000 cabeças decresceram para cinquenta, vinte e dez indivíduos. Os mais atingidos foram os grandes comedores de capim como as zebras, os bois-cavalos e os búfalos. A população de elefantes foi dizimada -- é vinte vezes menor. Os leões salvaram-se por uma unha negra; actualmente cerca de 50 vagueiam pelo Parque, mas quando acabou o morticínio apenas foram contados seis. Os mabecos ("wild dogs"), chitas e hienas não sobreviveram, nem os rinocerontes (infelizmente já estamos habituados a que os rinocerontes não o consigam fazer). Talvez algum dia eles voltem, mas provavelmente terão de vir de camião. Será que os leopardos sobreviveram ? Ninguém tem a certeza. Os leopardos são muito astutos e recentemente alguém viu o que pensa ser a cauda de um a desaparecer no meio do mato, mas é difícil ter a certeza.

 

 

Poderíamos -- e é o que normalmente as pessoas fazem -- deitar as culpas desta carnificina a um determinado número de actores: os colonos Portugueses, que bloquearam o acesso a formas de vida tradicionais quando desalojaram as pessoas do parque nacional; os Sul- Africanos que através de operações de caça furtiva obtiveram marfim cuja receita serviu para fomentar o conflito em Moçambique; os soldados de ambas as partes que mataram animais para obter carne (e, provavelmente, para afastar os seus medos e fúrias); os caçadores "industriais" que invadiram e devastaram o parque depois da guerra; e também os camponeses que provocam queimadas e colocam armadilhas num dos países mais carenciados do mundo.

 

No entanto, mais importante do que perceber as origens históricas deste tipo de situações trágicas, parece-nos ser fazer qualquer coisa para as remediar. E um grupo de pessoas dedicadas está de facto a a fazer alguma coisa pela Gorongosa -- na realidade, bastantes coisas. O Projecto de Restauração da Gorongosa (PRG) tem as suas raízes no desejo de Moçambique de reabilitar este lugar multi-dimensional: retocar e salvaguardar a sua beleza natural, fomentar um sentimento de orgulho e posse entre as pessoas que vivem dentro e à volta dele, e pôr em marcha um motor de desenvolvimento regional e nacional. O PRG é tão multi-facetado como o lugar que procura reabilitar. É dirigido por centenas de Moçambicanos com diversos tipos de formação, e por um carismático filantropo Americano, oriundo do Estado de Idaho. Mas também há lugares de destaque para geólogos, biólogos, veterinários e antropólogos; para as crianças da aldeia do outro lado do rio e para turistas vindos por exemplo de São Francisco nos EUA; para estudantes de medicina do Hospital do Monte Sinai (Nova Iorque) e para três estudantes dos Serviços Florestais dos EUA; para grandes organizações como USAID e IPAD (Cooperação Portuguesa), e para pessoas com bom sentido de oportunidade de negócio.

 

A ambiciosa missão do PRG é de "proteger e restaurar a estrutura natural, funções e processos do Parque Nacional de Gorongosa e melhorar a saúde, a educação e os padrões de vida das comunidades humanas que vivem nas proximidades do Parque." Poucas coisas poderiam ser mais difíceis, mas também poucas coisas poderiam ser mais importantes. Nos próximos textos, debruçar-me-ei sobre o que este inspirador projecto já conseguiu realizar, bem como sobre sobre os desafios críticos que irá encontrar à medida que for evoluindo.

 

Tradução do Departamento de Comunicação do PNG - Ver artigo original aqui: www.gorongosa.net/en/news-event/090810_Rob_Pringle_Blog/where-the-rift-valley-ends

 

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