Aspecto exterior do refeitório principal
O Centro de Educação Comunitária (CEC) do Parque Nacional da Gorongosa (PNG), um dos mais avançados empreendimentos em Moçambique que agrega conceitos, técnicas e materiais de construção ecológicos e o uso de recursos naturais, energia e água, será inaugurado nas próximas semanas. A infra-estrutura de servirá de apoio a acção de divulgação e sensibilização para questões ambientais, incluindo saúde, conservação, e educação ambiental.
O CEC está localizado no chamado "Site 1", área de influência do Régulo Chicare da Comunidade de Nhambita, a cerca de 5 km da Estrada Nacional N. 1, na fronteira oeste do PNG e abrange um espaço de 6 hectares. Da área total, apenas 1.447 m2 são ocupados com as instalações físicas, que mantêm a coerência com a sua proposta pedagógico - ambiental.
Aspecto interior do refeitório principal
A arquitectura do CEC teve a direcção das especialistas portuguesas, Diana Pitzer e Maria Menezes, da empresa Sketch, baseada em Maputo, tendo as componentes ecologicamente mais avançadas sido concebidas pelo arquitecto sul-africano Allan Schwarz, procurando o conjunto de edifícios valorizar a adaptação às condições ambientais, de maneira a permitir uma coexistência harmónica entre o Homem e o meio ambiente.
A edificação da obra, co-financiado pela Cooperação Portuguesa através do Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD), pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e pela Fundação Carr num investimento estimado em mais de um milhão de euros, esteve a cargo da Hooper & Louw que contou com trabalhos de engenharia da Hectra Developers, ambas empresas sul- africanas com representação em Moçambique.
Alguns dos membros da equipa que participou na concepção e construção do CEC
Os trabalhos de sua construção iniciados em 2008, compreenderam a edificação de seis dormitórios, uma casa para o guarda, escritórios, uma cozinha, um refeitório, uma lavandaria, uma residência para o gestor e outra para professores convidados do centro e duas salas de aulas. Estão em fase avançada de construção quatro tendas de luxo, instaladas em bases elevadas, que permitirão alargar o número de pessoas alojadas de forma regular no CEC.
Projecto singular em Moçambique
O CEC foi concebido atendo a preservação do meio ambiente com vista o desenvolvimento sócio-económico e a consideração ao meio ambiente, naquilo que é considerado o primeiro projecto de construção verde no País. Ou seja, uma construção erguida dentro de protótipos ecologicamente íntegros, oferecendo elevados níveis de economia de energia e de água, incluindo condições de tratamento local dos esgotos em fossas sépticas trifásicas.
Um dos dormitórios
Paralelamente, oferece melhor saúde, conforto e produtividade para os seus ocupantes. Para a construção foram usados materiais ecológicos produzidos com reduzido impacto no meio ambiente, nomeadamente blocos estabilizados compostos maioritariamente por areia e 6 por cento de cimento, madeira certificada de Chanfuta e de coqueiros que foram abatidos como medida de prevenção para evitar a difusão duma doença letal na Zambézia.
Aspecto da manufacção dos blocos estabilizados
O projecto arquitectónico ecologicamente sustentável garante um nível de conforto térmico e de qualidade do ar adequado através do isolamento térmico que reduz 5 graus da temperatura externa e do sistema de ventilação natural.
Permite o consumo reduzido e uma gestão sensata de água, através de captação e utilização das águas pluviais que caem no telhado dos edifícios pois cada um destes possuem uma cisterna no seu interior que recolhe o citado recurso hídrico e que, por sua vez, quando estiverem cheios escoam para grandes depósitos com capacidade global de 300 mil litros.
Depois de filtrada essa água é usada para diversos fins.
Um dos tanques de 100 mil litros de água
Também minimiza o consumo da electricidade energia eléctrica pelo uso da tecnologia de abastecimento de água por gravidade e bombas de baixa voltagem alimentadas na base da energia gerada em painéis solares.
Painéis solares no telhado de um dos edifícios
Dado importante, digno de realce, é que para a construção da infra- estrutura nem uma única árvore adulta foi derrubada senão alguns arbustos, assegurando deste modo a protecção de contornos naturais, bem como minimizando o impacto visual.
Pormenor de minimização de impacto visual
PNG espera criar com o projecto uma nova ética social e ambiental
O empreendimento tem por o objectivo principal contribuir para a criação de uma nova ética social e ambiental na sua área de influência, aliando a preocupação com os problemas globais ligados ao processo de degradação do meio ambiente, aos problemas actuais, resultantes da acção predatória do Homem.
Ou seja, pretende-se abordar a forma teórica e prática dos conteúdos educativos curriculares da educação ambiental, tendo como objecto a reflexão da aprendizagem ambiental no enfoque do desenvolvimento da comunidade.
Para esse efeito foi desenvolvido um ecocurrículo que tem como propósito fundamental reconstruir condições de trabalho para as pessoas, com todos os seus rasgos peculiares inerentes à diversidade cultural, melhorando a qualidade de vida e preservando o meio ambiente.
Por lado, o CEC vai ministrar matérias ligadas a outros domínios, como por exemplo, saúde sexual e reprodutiva, saneamento do meio, nutrição equilibrada, agricultura de conservação e empreendedorismo com o intuito de contribuir para a sustentabilidade económica da região por intermédio de criação de auto-emprego ou actividades de geração de rendimentos.
Uma comunidade da zona tampão do PNG recebe redes mosquiteiras
Cerca de 200 mil redes mosquiteiras tratadas com insecticida de longa duração foram recentemente distribuídas em Nhamatanda, Gorongosa, Muanza e Cheringoma, numa iniciativa que envolveu o Programa Nacional de Controlo da Malária (PNCM), os Serviços Distritais de Saúde, Mulher e Acção Social das regiões beneficiárias, o Projecto de Restauração do Parque Nacional da Gorongosa (PNG), Health Alliance International (HAI) e PSI - Moçambique.
Os distritos de Muanza, Gorongosa e Cheringoma beneficiaram da cobertura universal, enquanto o de Nhamatanda teve abrangência parcial alcançando apenas as comunidades que vivem na Zona Tampão daquele Parque.
As redes impregnadas em referência são uma doação resultante de uma parceria estabelecida entre o Projecto de Restauração do PNG e a Agência dos Estados Unidos da América para o Desenvolvimento Internacional (USAID) visando a abrangência das comunidades em redor do Parque.
O projecto visava, em princípio, abranger um universo mais reduzido de pessoas da comunidade do Vinho, em Nhamatanda, mas consultados o Ministério da Saúde (MISAU) e a USAID consideraram pertinente alargar a acção aos quatro distritos que circundam o Parque, no âmbito da campanha piloto de cobertura universal, desencadeada pelo PNCM. A anteceder a distribuição gratuita, a equipa das Relações Comunitárias do PNG e seus parceiros neste programa realizaram em finais do ano passado um censo para apurar o número total de agregados familiares nas regiões delimitadas para a implementação da iniciativa.
Coube à PSI a coordenação da logística da distribuição.
População favorecida sente-se protegida contra a malária
Os beneficiários mostram-se satisfeitos com o gesto, pois com este meio à disposição, segundo afirmaram, estão eficazmente protegidos durante o sono, momento em que sucede a maioria das picadas por mosquito do género Anopheles.
Segundo Helena Daniel, mãe de um filho e agora grávida novamente, habitante de Massala, posto administrativo de Vundúzi, uma das comunidades da Serra da Gorongosa, as redes ajudarão a sua família a proteger-se dos mosquitos. Ela considera o donativo de importância imensurável, dado que vai salvaguardar a saúde de muitas pessoas na região. De acordo com aquela mãe, o valor daquela ajuda é muito grande pelo facto de a maioria dos agregados familiares da sua comunidade viverem no limiar da pobreza e, portanto, incapacitados de comprar com recursos próprios uma rede mosquiteira.
Isto para além de as redes não estarem acessíveis localmente.
Helena Daniel, da comunidade de Massala
Este sentimento é corroborado por António Zeca e Gracia Sozinho do mesmo aglomerado populacional de Massala. Até porque no dia em que Gracia Sozinho recebeu a doação estava padecendo de malária, uma enfermidade, segundo disse, muito frequente naquela área.
Gracia Sozinho, comunidade de Massala
Por seu turno, o fumo Filipe Melo do Regulado de Nhanguo, distrito de Gorongosa, vê as redes mosquiteiras impregnadas como sendo de vital utilidade para a prevenção do risco de exposição à malária que apoquenta inúmeras pessoas no território que lidera.
Fumo Filipe Melo, da comunidade de Nhanguo
Primeira possibilidade de implementação da estratégia de cobertura universal em Sofala
A Direcção Provincial de Saúde (DPS) de Sofala teve com esta acção a primeira oportunidade de implementação da estratégia de cobertura universal de redes mosquiteiras nos distrito de Nhamatanda, Gorongosa, Muanza e Cheringoma, no âmbito do controlo da malária.
O Dr. Isaías Ramiro é optimista do impacto positivo a obter a partir da distribuição de redes impregnadas nos quatro distritos: "A província de Sofala tem registado nos últimos anos a redução de casos e de número de mortes por malária graças a conjugação de múltiplos esforços do seu controlo pelo sector da Saúde, pelo que com esta distribuição de redes mosquiteiras esperamos o decréscimo maior das infecções"- crê.
De acordo com este médico-chefe, a DPS conseguiu pela primeira garantir o acesso total deste meio de prevenção para todas as pessoas expostas nas regiões acima e não somente para os grupos de maior risco, nomeadamente mulheres grávidas e crianças.
Por outro lado, deu a conhecer as estatísticas de malária deste ano ao nível das jurisdições abrangidas pela doação. Ou seja, registaram-se até Maio corrente em Nhamatanda, Gorongosa, Muanza e Cheringoma, respectivamente 14.966, 13.633, 1.832 e 1.038 casos, contra 30.080 notificados em Nhamatanda, 14.911 em Gorongosa, 2.561 Muanza e 1.997 Cheringoma, no mesmo período de 2009.
Quanto aos óbitos disse que até Maio de 2010, o distrito de Nhamatanda registou 9, Cheringoma 1, Gorongosa e Muanza nenhum, contra 45 ocorridos em Nhamatanda, 6 em Muanza e nenhum em Cheringoma e Gorongosa, de Janeiro a Maio do ano passado.
Malária é principal causa de problemas de saúde em Moçambique
Segundo informações disponíveis no website do MISAU, a malária é a principal causa de problemas de saúde, sendo responsável por 40% de todas as consultas externas.
Embora se registe uma tendência de diminuição da taxa de mortalidade nos últimos tempos, é também a principal causa de morte nos hospitais em Moçambique, ou seja de quase 30% de todos os óbitos registados.
Por outro lado, o Inquérito Nacional sobre Causas da Mortalidade, em Moçambique (INCAM), efectuado pelo Instituto Nacional de Estatísticas (INE), também aponta a malária como a principal causa de morte, no País, seguida do HIV/SIDA.
O estudo indica que a malária mata mais nas províncias do Norte e Centro do País, bem como na província de Inhambane, já no Sul, enquanto que o HIV/SIDA é o principal responsável pela mortalidade nas províncias do Sul, nomeadamente a de Gaza, Maputo-Província e Cidade.
A malária é, também, a principal causa de mortalidade, nas zonas rurais enquanto que o HIV/SIDA mata mais, nas zonas urbanas, ainda, de acordo com o Inquérito Nacional sobre Causas da Mortalidade, em Moçambique.
A malária é igualmente responsável por uma alta taxa de absentismo laboral e escolar. Durante a gravidez a malária é também um dos grandes factores de risco para as mulheres gestantes e constitui umas das principais causas de partos prematuros e/ou do baixo peso à nascença.
As principais instituições que lutam contra esta enfermidade no País, nomeadamente o MISAU e a USAID, entendem que uma das formas de se proteger da infecção é o uso universal de rede mosquiteira tratada com insecticida de longa duração.
No entanto, o grande desafio é garantir a cobertura universal para todas pessoas e não apenas os grupos de maior risco para se obter o impacto desejado e desta forma atingir as metas preconizadas para o controlo da malária.
Books for Kids Africa acaba de implantar uma biblioteca comunitária móvel em Vinho, no distrito de Nhamatanda, em Sofala. Trata-se do primeiro conjunto de livros de tantos a serem entregues por este projecto às comunidades da Zona Tampão do Parque Nacional da Gorongosa (PNG).
Os assistentes da acção efectuada na Escola Primária de Vinho têm o primeiro contacto com os livros da nova biblioteca
A acção visa preencher a lacuna da falta de materiais didácticos diversificados de conteúdo literário e ilustrativo nas escolas, sobretudo nas zonas rurais, dado que o processo de aprendizagem é mais eficaz quando a educação é relevante e atraente.
Por outro lado, segundo a respectiva directora, Mary Jo Amani, o projecto Books for Kids Africa tem por objectivo pôr à disposição das crianças diversos livros como forma de motivá-las e propagar o hábito do gosto pela leitura fora da sala de aula com vista a contribuir na melhoria de qualidade da educação em Moçambique.
Os novos livros despertaram o interesse dos participantes mais velhos...
... e também dos mais jovens!
Para a posição da facilitadora da biblioteca comunitária móvel do Vinho foi eleita Belinha Basto. E para desempenhar cabalmente as suas funções, a jovem mãe, recebeu uma breve formação em matéria da ocupação que passou a assumir.
Para começar, o projecto deixou naquela comunidade 11 sacolas e 110 livros para empréstimos. Para além daquele ponto geográfico de Nhamatanda, igualmente beneficiarão dessa iniciativa mais comunidades da Zona Tampão do PNG.
Paralelamente, Mary Jo Amani e a sua colaboradora e amiga Lehla Eldridge, autora e ilustradora, acompanhadas por técnicos do PNG, visitaram em Dezembro do ano passado o povoado de Mbulaua e o posto administrativo do Vunduzi, no distrito da Gorongosa, para explicar o propósito do seu programa e explorar interesses para estabelecimento de mais bibliotecas comunitárias.
Mary Jo Amani (centro), directora do Books for Africa apresentando o seu projecto em Mbulaua
Books for Kids Africa, baseado no programa de grande sucesso nicaraguense Libros para Niños que há 18 anos fomenta bibliotecas itinerantes em escolas públicas e salas de leitura da comunidade, promove a leitura no País através de bibliotecas móveis da sala de aula, bibliotecas comunitárias de empréstimo, formação de professores e publicação de livros culturalmente relevantes para as crianças.
As bibliotecas comunitárias, também conhecidas por bibliotecas de empréstimo, comportam até 500 livros de alta qualidade e de fácil leitura para crianças e adultos em Português. Elas são geridas por facilitadores locais o que garante aos interessados o empréstimo rotativo de sacolas com até dez obras de diferente temática segundo critérios previamente definitivos.
Os requisitantes depois de lê-las em suas casas, escolas e comunidades passam-nos para os outros. As bibliotecas móveis são também usadas para as salas de aula, nomeadamente entre as classes do ensino primário com o propósito dos livros serem lidos em voz alta para os alunos puderem participar em debates e realizar actividades neles contidos.
Este, segundo os mentores da iniciativa, é um impulso significativo para a realização de leitura e melhorias na escrita, audição, gramática, e outras aprendizagens.
Já a formação de professores visa treiná-los em metodologia de leitura em voz alta e silenciosa para complementar a instrução fonética, como parte integrante dos processos de aprendizagem activa que pode ser usado em todo o currículo.
Pretende-se assim dotar os docentes de metodologias participativas e proporcionar-lhes experiência que possa ajudá-los a criar novas competências pedagógicas.
Importa referenciar que Nwadjahane, na província de Gaza, foi a primeira comunidade em Moçambique a beneficiar-se de uma biblioteca comunitária móvel de empréstimo em Novembro de 2009 do projecto Books for Kids Africa.
Os alunos da Escola Primária Completa (EPC) de Mbulaua, do distrito da Gorongosa, em Sofala, ganharam o Prémio National Geographic para o 2º Escalão de Idades do Concurso Internacional de Arte: "Quando o Mundo se torna Tela".
O concurso sob a égide da Comissão Nacional da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), integrado no II Congresso Internacional Escolar: Recursos Naturais, Sustentabilidade e Humanidade, decorreu no mês de Maio último na cidade de Braga, em Portugal.
Participaram desse concurso, alunos de diferentes países, entre os quais Brasil, Polónia, Alemanha, Portugal, Grécia e França, agrupados em dois escalões. A primeira categoria integrava meninos de até aos 12 anos de idade, enquanto a segunda divisão comportava adolescentes de até aos 18 anos.
O concurso tinha como o propósito sensibilizar a sociedade, para a promoção das boas práticas da preservação ambiental. A EPC de Mbulaua esteve representada na efeméride por um total de dez alunos que frequentam a 6a. e 7a. classes.
Parte dos alunos da EPC de Mbulaua que participaram do concurso
A obra vendedora "Art Project Tree"apresentada pelos meninos do interior da Gorongosa, foi projectada em tela de barro usando a técnica de colagem. Ou seja, colaram cascas de árvores vivas para representar o caule, cinza e barro para pintura do tronco. Igualmente colaram folhas vivas no topo da árvore para representar o verde dos órgãos especializados em captação de luz e trocas gasosas com a atmosfera para realizar a processo da fotossíntese.
A "Art Project Tree" representa uma mensagem de preservação das florestas e a árvore sobretudo partes da sua divisão, nomeadamente ramos e raízes, como habitat de pássaros, de insectos e mais. A EPC de Mbulaua contou com a orientação do educador comunitário do Parque Nacional da Gorongosa, Herculano Ernesto, e da voluntária do Corpo da Paz vinculada ao Programa Ambiental do PNG, Sinead Brien.
A obra vencedora: "Art Project Tree"
As obras "Pé de Caqui" e "Atlântica", ambos de Mogi das Cruzes, Brasil, ganharam o 1º Escalão de idades. Os trabalhos serão expostos no Museu Regional de Arqueologia D. Diogo de Sousa, em Braga.
Para além disso todos os competidores receberão um certificado de participação. Referir que o júri do Concurso Internacional de Arte: "Quando o Mundo se torna Tela", em que os alunos da Gorongosa venceram o 2º Escalão de Idades, era constituído por quatro elementos de reconhecido prestígio académico e artístico, designadamente Luís Coquenão, artista plástico, Alexandra Ribeiro, professora e artista plástica, Jean Pierre Porcher, arquitecto e artista plástico e Margarida Oliveira.
Uma mulher portadora de deficiência física, é exemplo incontornável e fonte de inspiração de empreendedorismo na Comunidade do Vinho, uma área rural do distrito de Nhamatanda, em Sofala.
Ajola Chaibande Chicossa
Trata-se de Ajola Chaibande Chicossa que se dedica à actividade agro- pecuária como forma de vida e subsistência. Também tem uma propriedade agrícola de hortaliças, na qual produz uma diversidade de ervas aromáticas e vegetais.
A produção é vendida maioritariamente ao restaurante do Parque Nacional da Gorongosa e, em pequena escala, a outros revendedores dos mercados informais do distrito de Nhamatanda. Os seus ganhos anuais nos últimos tempos cifram-se acima de 25 mil meticais, valor superior ao rendimento anual dos trabalhadores com salário mínimo nacional em alguns sectores de actividades formais em Moçambique.
Com as receitas arrecadas consegue satisfazer as suas despesas domésticas, incluindo os encargos da educação dos filhos. No entanto, um crocodilo tem inviabilizado os projectos pecuários da Ajola Chaibande Chicossa ao atacar 19 cabritos, entre 2006 a 2008. Igualmente devorou no mesmo período cinco cães.
Os animais foram atacados quando se dirigiam a Nhangute, um dos afluentes da bacia hidrográfica do Púnguè, para beberem a água. Presentemente, o crocodilo galga as encostas do rio acima referido, que fica a escassos metros da moradia da empreendedora, para comer várias dúzias de ovos de patos.
Há dias um galo escapou a morte e ficou com uma porção do seu corpo depenada, em resultado de um ataque fracassado do tal crocodilo.
Curral de cabritos vazio em consequência de ataques do crocodilo
Segundo avaliou Ajola Chaibande Chicossa, a perda dos cabritos provocou um prejuízo de aproximadamente 20 mil meticais.
Ela acha ser misterioso o crocodilo devastador e pensa que o mesmo esteja a atacar a mando de alguém através de magia africana para inviabilizar seus planos económicos, pois todos os seus vizinhos com animais domésticos têm as criações intactas na zona.
"A minha atitude de iniciativa própria, realização de acções e administração de actividades com o objectivo de desenvolver e dinamizar meus projectos deve estar a provocar ódio e inveja em alguns dos meus vizinhos" disse.
Primeira a ter casa melhorada e uma motorizada
Ajola Chaibande Chicossa é a primeira e até então a única cidadã a ter uma casa melhorada em Vinho, uma comunidade rural que fica a cerca de 40 km da vila-sede distrital de Nhamatanda.
A vivenda construída com base em blocos de terra estabilizada e coberta com chapas de zinco foi edificada em 2004, sob regime de administração directa com fundos próprios. Ter uma casa como a de Ajola Chaibande Chicossa em meio rural recôndito, situação da comunidade do Vinho, é algo pouco comum em Moçambique.
Casa de Ajola Chaibande Chicossa
Também foi a primeira a comprar uma motorizada na sua comunidade.
Ter carro é maior sonho de Ajola
O maior sonho da realização na vida de Ajola Chaibande Chicossa é ter um carro com caixa aberta de mercadoria. De acordo com ela, o veículo automóvel ajudará nas suas deslocações dada a sua condição física e para o transporte de seus produtos agrícolas para colocá-los em diversos mercados, pois em todos os anos tem registado enormes perdas de vegetais por insuficiência de compradores.
"Bilhete de Identidade" de Ajola Chaibande Chicossa
Ajola Chaibande Chicossa, 70 anos, casada, mãe de 7 filhos vivos e 5 falecidos, é combatente de Luta de Libertação Nacional, agora aposentada, com a patente de 1º Sargento.
É portadora de deficiência física adquirida, em consequência de uma mina anti-pessoal que trilhou durante a Guerra Civil. A seguir ao acidente foi evacuada de emergência para Hospital Central da Beira para efeitos de tratamento.
Na altura estava grávida de oito meses que dias depois deu à luz ao seu filho de 21 anos. Ela diz ter havido milagre de Deus para ter um filho vivo depois do acidente sofrido, pois o mais provável que estava no pensamento de Ajola e de toda a família era um aborto.
Conforme contou, accionou o engenho bélico na via pública, arredores da vila de Gorongosa, no último cartel da década 80. Um desastre que lhe amputou metade do pé da perna direita.
Como forma de compensar a perna afectada usa uma prótese artesanal feita com base de um pedaço de pneu, pele de animal e panos.
Esta é a mulher empreendedora de sucesso na comunidade do Vinho, distrito de Nhamatanda, em Sofala.
Corte da fita no portão de acesso aos safaris
O Parque Nacional da Gorongosa (PNG) abriu no dia 15 de Abril corrente a época turística 2010, num ambiente de grande festa e recheado de diversas manifestações culturais.
O PNG esteve com os portões de acesso à rede das picadas do safari fechados desde 18 de Dezembro último. Trata-se de uma interrupção que acontece todos os anos no mesmo período por se tratar de começo da estação chuvosa em que a precipitação pluvial inunda as planícies e torna estradas em autênticos lamaçais, impossibilitando a circulação de todo o tipo de viaturas mesmo as de tracção às quatro rodas.
A efeméride foi caracterizada por cerimónias tradicionais, declaração da abertura da época turística, discursos de membros do Comité de Supervisão da gestão do PNG e do administrador distrital da Gorongosa, realização do Safari inaugural, danças tradicionais e exibição do filme "Africa´s Lost Eden".
Tomaram parte do acto administradores distritais e directores dos Serviços distritais do Planeamento e Infra-estruturas, das Actividades Económicas e da Educação, Cultura, Juventude e Tecnologia da Gorongosa, Nhamatanda, Muanza e Cheringoma.
Estiveram igualmente presentes os régulos da Zona Tampão do PNG e outros convidados, incluindo trabalhadores e membros da direcção do Parque.
Cerimónias tradicionais em respeito aos hábitos locais
O Parque em respeito aos hábitos e costumes da região organizou duas sessões de cerimónias tradicionais. A primeira, dirigida por Chuva Camacho Nhanguo, teve lugar no dia 14 de Abril de 2010 nas ruínas do antigo acampamento turístico de Chinongora, mais conhecido actualmente por "Casa dos Leões".
A Casa dos Leões, construída em 1940, localiza-se nas planícies do Rio Mussicadzi, a 10 km do Chitengo. Este sítio teve que ser abandonado dois anos mais tarde, devido a grandes cheias na época das chuvas. Os leões tomaram conta das construções abandonadas passando a ser conhecido com o nome de "Casa de Leões".
Chuva Camacho Nhanguo é responsável por ritos tradicionais do regulado com o nome do seu apelido, cujo território de jurisdição estende-se até Chinongora.
Cerimónia tradicional na Casa dos Leões
Por sua vez, João Chitengo orientou no dia seguinte no acampamento de safaris do Chitengo junto à árvore sagrada, a cerimónia tradicional em veneração ao espírito do Chitengo que se acredita, de acordo com narrações orais, que tenha sido o primeiro cidadão a se estabelecer nesta região provavelmente no início do séc. XX.
Em geral, os dois líderes espirituais fizeram preces de bênção para que o PNG consiga maior índice de captação de receitas na presente época turística. Igualmente pediram aos espíritos dos seus antepassados a protecção para os trabalhadores e visitantes do Parque em relação à fauna bravia.
João Chitengo, orientando a cerimónia na árvore sagrada
Declaração de abertura
Depois da cerimónia tradicional orientada por João Chitengo, seguiu-se o momento dos discursos da declaração de abertura oficial do Parque junto ao portão que dá passagem à área de safaris.
O membro do Comité de Supervisão do PNG pela parte do Governo de Moçambique, Bernardo Beca Jofrisse, foi o primeiro a dirigir-se aos presentes. Na sua breve intervenção falou do sucesso mundial do filme "Gorongosa National Park: África´s Lost Eden" que já ganhou oito prémios internacionais.
O documentário recebeu o Prémio Ouro na categoria TV - Viagens e o Grande Prémio Diamante em todas as categorias no Festival de Filmes de Turismo de Berlim, que teve lugar de 10 a 14 de Março de 2010, na Alemanha, obteve quatro prémios no Festival Internacional de Filmes sobre a Vida Selvagem da Montana, nos EUA.
Já mais recentemente foi galardoado com mais dois prémios, nomeadamente Grand Prix Award e Eco Tourism Award, no Festival de Filmes de Turismo de Riga, na Letónia.
Bernardo Beca Jofrisse, membro do Comité de Supervisão do PNG
Por seu turno, o membro do Comité de Supervisão do PNG pela parte do Gorongosa Restoration Project, Greg Carr, abordou sumariamente as prioridades das acções a desenvolver no ano em curso. Referiu-se à reintrodução de mais animais, construção de mais infra-estruturas e continuação da implementação de iniciativas do desenvolvimento sócio- económico e comunitário da Zona Tampão.
Greg Carr, membro do Comité de Supervisão do PNG
Enquanto que o administrador do distrito da Gorongosa, João Oliveira, apelou a uma maior cooperação das estruturas tradicionais e da comunidade em geral no controlo da caça furtiva e das queimadas descontroladas dentro da área de conservação.
João Oliveira (à esquerda), administrador do distrito da Gorongosa
Por fim declarou aberta a época turística 2010 do PNG e procedeu ao corte da fita no portão que dá acesso à zona de safaris. Acto seguido por um game drive inaugural.
Apresentação do informe das actividades
Na parte da tarde, a direcção colegial do Parque apresentou aos convidados de honra e aos membros do Comité de Supervisão um informe das actividades realizadas em 2009.
De uma forma genérica, foram abordados conteúdos relacionados com a afluência de turistas em número de 4.630, a criação de 459 empregos, dando prioridade a mão-de-obra local cifrada em 46% só para o distrito da Gorongosa, reintrodução de animais bravios, implementação de projectos de geração de rendimento familiar nas comunidades da Zona Tampão, divulgação e popularização da imagem do Parque ao nível nacional e internacional, entre outros.
Apresentaram intercaladamente o informe o gestor do Departamento das Operações, Scott Kipp, o director do Departamento de Comunicação, Vasco Galante, o director do Departamento das Relações Comunitárias Mateus Mutemba e o director do Departamento da Conservação, Carlos Lopes Pereira.
Aspecto da sessão de informe das actividades
Visita ao acampamento e a outras construções em curso
Depois da apresentação do informe das actividades realizadas em 2009, os convidados de honra visitaram o acampamento de safaris e as obras de construção de dois dormitórios para trabalhadores em Chitengo. Também visitaram o Centro de Educação Comunitária, aonde receberam a explicação do estágio da obra e dos objectivos do empreendimento.
Momento da visita ao refeitório do Centro de Educação Comunitária
Actividades culturais
A cerimónia decorreu em ambiente de grande festa com canto e dança tradicionais.
O Grupo Cultural Chibango Mapaza da Gorongosa, vindo da vila-sede distrital, sob a liderança de José Chibango, deu mais luz e cor o evento com cantos e boa dança ao ritmo de sons de batuques tocados com muita proficiência.
Os artistas mostraram o seu multifacetado talento em várias danças, como é o caso de Mapaza, Djole e Nkhetekete. Na ocasião, Greg Carr mostrou que socializa-se facialmente com qualquer cultura e também tem habilidade nos pés ao entrar em palco e ensaiar com perfeição alguns passos de Mapaza.
A direcção do Parque em todos os seus eventos tem privilegiado actividades do género como forma de promoção da diversidade cultural e respeito pelas manifestações culturais locais. A festa durou o dia todo com muita comida e bebida tradicional e convencional ao som de muitos cantos e danças.